Lendo um Som #1 – Jeremy, por Pearl Jam Parte 02

Confira a primeira parte Aqui.

 

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No momento em que o Pearl Jam lançou seu terceiro single e clipe de seu álbum de estréia, TEN, no final de 1992, eles já estavam na beira do super estrelato, seguindo os passos de uma longa lista de bandas de Seattle que a mídia e gravadoras esperavam que fossem “o próximo Nirvana”. Eles já tinham feito sucesso com dois clipes ao vivo bem recebidos de seus singles anteriores “Alive” e “Evenflow”. Mas “Jeremy” marcou o primeiro (e único) vídeo narrativo. Foi uma longa e turbulenta estrada para tornar o clipe da música “Jeremy” uma realidade, mas quando a poeira baixou, o videoclipe acabou ganhando 4 MTV Video Music Awards.

No verão de 1991, o vocalista Eddie Vedder começou uma amizade com o fotógrafo Chris Cuffaro e o convidou para dirigir seu próximo videoclipe baseado em qualquer canção que ele quisesse do álbum TEN. Cuffaro escolheu “Jeremy”, mas a Epic Records foi contra a ideia. Assim, Cuffaro levantou o dinheiro e filmou a versão original do vídeo “Jeremy” em um armazém em Los Angeles, em outubro de 1991. O clipe mostrava a banda interpretando a música em uma plataforma circular, com cortes rápidos do personagem de Jeremy, interpretado por  Eric Schubert, aparecendo pensativo em seu quarto. Confira aqui o clipe.

O vídeo foi rejeitado pela Epic, mas eles tiveram uma mudança de pensamento em relação a “Jeremy” ser o 3 º single e acabaram sugerindo outra tentativa com Mark Pellington na direção. Vedder logo teve uma conversa com o diretor que estava em ascensão e, imediatamente, os dois estavam alinhados sobre a visão para o clipe. A versão de Pellington focalizaria primeiramente em Vedder que canta as partes principais da canção e contar uma história narrativa que caracterizaria o conflito interno do adolescente Jeremy, interpretado desta vez por Trevor Wilson. Ignorado por seus pais, e evitado por seus professores e colegas de classe, Jeremy vive em seu próprio mundo, até que o fardo se torna demais para suportar. No final do vídeo, Jeremy entra em sua sala de aula, lança uma maçã em seu professor, coloca um revólver em sua boca e tira sua própria vida na frente de seus colegas. Confira o clipe sem cortes:

Embora o vídeo da música tenha sido censurado por Bruce Ashley, um veterano no mundo de edição de clipes, o maior desafio veio em articular corretamente o final. Devido às restrições rigorosas da MTV e problemas com uma arma sendo fisicamente vista na tela, a conclusão do clipe como foi ao ar ficou confusa. É algo que tem frustrado o diretor e editor desde o seu lançamento. Terminando com o tiro na frente dos estudantes que acabam ficando cobertos de sangue, as pessoas assumiram que Jeremy tinha levantado sua arma e matado seus colegas, quando na realidade, eles filmaram o menino colocando a arma na boca. A intenção era que seu sangue ficasse literalmente em suas mãos. (O corte original do diretor sem censura foi linkado anteriormente).

Independentemente das interpretações das pessoas sobre o vídeo, a própria letra é clara, e a mensagem, potente. “Jeremy falou na sala aula hoje.” A única vez que todos finalmente ouviram. – “Tente esquecer isso. Tente apagar isso. Do quadro negro.” Seu último ato de desespero, para sempre incorporado na psique dessas crianças. E a revelação mais triste foi que a história de Jeremy foi de fato baseada na de um adolescente que Vedder tinha descoberto em um jornal.

Jeremy Wade Delle era um jovem de 15 anos, tímido, que estudava na Richardson High School em Richardson, Texas; Seus pais, Joseph R. Delle e Wanda Crane estavam divorciados. Jeremy viveu com seu pai e foi descrito por seus colegas de classe como uma pessoa retraída, mas engraçada. O colega de classe Sean Forrester disse ao The Dallas Morning News: “Ele nunca pareceu demonstrar ter algo de errado. Ele sempre fazia piada sobre tudo.” Ele também freqüentemente passava com notas baixas com a professora Moore, onde muitas vezes acabava em detenção. “Ele escrevia a frase ‘Escreva de volta’. Mas na segunda-feira ele escreveu: ‘Nunca mais’. Eu não sabia o que fazer com isso “ , disse ela. “Mas eu nunca pensei que isso iria acontecer.”

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Na manhã de 8 de janeiro de 1991, Jeremy Wade Delle entrou atrasado na sala de aula. Sua professora insistiu para ir buscar um aviso com o diretor. Ele voltou às 9h45, disse em voz alta: “Senhorita, eu consegui o que eu realmente queria”, colocou uma Magnum .357 em sua boca, e se matou na frente de sua classe. Os alunos e professores atordoados não tiveram tempo para reagir. Ele morreu instantaneamente.

O que realmente aconteceu com Jeremy para levá-lo ao suicídio? Era a intimidação incessante de seus colegas de classe? Um lar destruido ? Ou depressão? Embora não seja confirmado, diz-se que Jeremy escreveu várias notas de suicídio para amigos próximos, juntamente com a gravação de uma fita cassete delineando seu plano, mas nenhum delas nunca foram disponibilizados publicamente, nem do motivo do por que ele fez isso. Seu suicídio foi sem dúvida destinado a traumatizar seus colegas de classe, alguns dos quais podem ter sido os valentões. Sheryl Pender, conselheira do Willow Park Hospital, disse ao The Dallas Morning News que as testemunhas provavelmente nunca superariam essa provação. “Eles vão passar a ter lembranças tristes, passar a terem ansiedade e medo.”

O que é mais chocante do que a morte de Jeremy é que este não foi um incidente isolado ou a primeira vez que isso aconteceu em sua cidade. A história dos suicídios em Richardson é estranha. Antes do suicídio de Delle em 1991, três estudantes de Richardson se mataram durante o primeiro semestre de 1988. Em 1985, um estudante de Arlington, de 17 anos, se matou em sua aula de teatro. Oito jovens se mataram entre 1983 e 1984. Em 1982, o ano anterior, foram 28 suicídios relatados.

Com “Jeremy”, Pearl Jam tinha tocado em algo no subconsciente público e trouxe à tona problemas que ninguém queria falar. Assédio moral. Depressão. Suicídio. Violência. “Ninguém estava falando sobre crianças e armas”, disse Pellington ao Smashbox Studios em uma entrevista recente. “Isso foi sete anos antes de Columbine.” Acho que o que “Jeremy”, tanto a música quanto o clipe, mostram é que alguém poderia facilmente se tornar o próximo Jeremy.

A segunda parte da canção é inspirada por outro adolescente que Vedder conhecia na escola secundária. Em uma entrevista de 1991, Vedder falou um pouco sobre um garoto chamado Brian que ele conhecia em San Diego e, muitas vezes, brigaram pelo colégio. Brian trouxe uma arma para a escola certo dia e a disparou na sala de oceanografia, felizmente não feriu a si mesmo ou qualquer outra pessoa. “Muita gente interpreta isso de maneiras diferentes e foi recentemente que eu estive falando sobre o verdadeiro significado por trás disso”, disse Vedder em uma entrevista. “Espero que ninguém se ofenda, mas penso em Jeremy quando eu canto.”

Devido ao enorme sucesso do clipe, que ajudou a empurrar o Pearl Jam para o topo das paradas, a banda lentamente começou a se retirar das aparições públicas. Eles decidiram parar de fazer clipes musicais para a MTV  e promover seus álbuns (com a única exceção do clipe de 1998 da musica “Do The Evolution“), e escolheu travar batalhas com gigantes corporativos como a Ticketmaster sobre a monopolização e a monetização de shows ao vivo. Por alguns anos eles ainda tentaram omitir “Jeremy” de seus setlists ou começar a tocar versões alternativas da música ao vivo. Isso mostra quanto é pesado tratar sobre certos assuntos em algumas mídias e talvez “Jeremy” fosse demais para a banda iniciante. Em minha pesquisa para este artigo, eu encontrei um texto escrito pelo pai de Jeremy Delle sobre o que ele achava de uma banda fazendo sucesso com a história de seu filho e suas consequências. Para finalizar deixo os pensamentos de um pai que perdeu seu filho de forma brutal e que possamos refletir sobre o outro lado da moeda. Abraço!

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Em 8 de janeiro de 1991, meu filho ficou na frente de sua classe de Inglês, colocou um revólver 357 na boca e puxou o gatilho. Ele tinha 15 anos e seu nome era Jeremy. Ele era meu único filho.

Aprendi lentamente através do aconselhamento de luto para dar um passo de cada vez e viver um dia por vez, apesar da dor constante e da angústia inacreditável, nenhum dos pais deveria ter que suportar algo parecido.

Eu tinha sido abordado por repórteres que bateram à minha porta sem ser convidados, meus telefones tocaram em horas estranhas com a mesma pessoa querendo saber o que ele fazia, deixaram mensagens na minha porta ou na minha caixa de correio e depois descobri que um grupo havia escrito uma música que estava sendo vinculada na MTV. A música era “Jeremy” por Pearl Jam. Isso os tornou famosos. Isso me fez vender minha casa e me mudar.

Nos últimos 18 anos, recebi algumas notas e telefonemas, mesmo quando me afastei de Richardson, as mensagens agora são da Alemanha e da Inglaterra, bem como dos EUA. Eles sempre querem a mesma coisa. Eles querem informação ou algo que pertenceu a Jeremy. Quando eu visito seu túmulo, eu costumo encontrar notas e artefatos deixados por “fãs”. Há uma grande quantidade de sites dedicados a Jeremy cheias de informações erradas e meias verdades oferecidas por pessoas que alegam terem o conhecido suficiente para terem informações privilegiadas. Essas pessoas de alguma forma ganham status naqueles foruns frequentados por jovens adolescentes que têm alguma ideia perversa de que o que ele fez foi realmente legal. Sempre, sempre são atraídos pela música e falam sobre a adoração por Eddie Vader. Minha angústia é tão profunda com cada chamada, nota ou email.

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Lendo um Som #1 – Jeremy, por Pearl Jam Parte 01

Não devem ter sido muito mais de vinte pessoas a assistir ao derradeiro momento, mas são certamente milhares aqueles que conhecem esse momento. Estranha forma de eternidade a dele. Primeiro, pediu permissão à professora para se retirar momentaneamente da sala. Saiu. Completamente indiferentes ficaram todos. Aquele rapaz não tinha amigos, não tinha, para muitos, sequer um nome. Depois regressou à sala, para se tornar alguém, para ser eterno.

“Já tenho o que preciso.”

Ele disse à professora. E, antes que alguém sequer pudesse entender o que ele dizia, Jeremy colocou o revólver na boca e disparou. De repente, aquele rapaz era alguém. Não se chamava Jeremy, não tinha nome, mas era o rapaz de 15 anos que se suicidou em frente da turma inteira. Os pingos de sangue espalharam-se e o corpo caiu no chão, já morto, esfriando, enquanto gelada estava a turma inteira e a professora. Claro que Jeremy parecia um rapaz calmo, quase nem se dava por ele. É essa a condenação. Ali estava o corpo, estatelado na frente da plateia atônita que via, finalmente, o resultado do seu comportamento. Culpados, há sempre culpados. Culpada é a vítima, são os opressores, são os condescendentes. Jeremy não foi o primeiro e não foi o último. Hoje dizemos o nome dele.

Screenshot from Jeremy

Jeremy Wade Delle é conhecido, é uma peculiar celebridade, e viverá por muitos e longos anos. Um jovem de Seattle, vocalista de uma banda que estava gravando as suas primeiras demos encontrou a notícia sobre Jeremy num jornal e decidiu fazer uma canção sobre ele. Hoje, Pearl Jam é uma banda respeitada e, mais importante do que isso, ouvida. E ‘Jeremy’ é a canção que todos sabem cantar. Todos nós ligamos a música e cantamos aquela letra angustiosa que nos aponta o dedo e nos acusa. E nós não fizemos nada. Precisamente por isso somos culpados. Houve um Jeremy na minha vida, houve um Jeremy na vida de cada uma das pessoas que estão lendo isto que agora escrevo. O mais provável é que alguém leia e pense Não, na minha vida não houve. É exatamente esse o melhor sinal de que houve mesmo. Nós não nos lembramos dele, ou se lembramos é muito vagamente. Nós o observarmos ele passar silencioso e desisteressado nos corredores, ignorado por todos, mesmo por nós, mesmo por aqueles que também não eram cheios de si.

E depois, acontece aquilo que Eddie Vedder diz. Chega o dia em que Jeremy fala. Esse falar não tem nada que ver com as palavras que Jeremy Wade Delle ou qualquer outro Jeremy possa ter dito. Quando eles falam, é para ter a última palavra. É para cairem, em seguida, mortos no chão. Quantos de nós não podíamos ter sido mais um Jeremy? Quantos de nós não quisémos entrar para a eternidade? A vida, por condição, tem que ser temporária, e querer entrar na eternidade significa rejeitar a vida. Jeremy quis ser eterno, não no sentido em que as pessoas soubessem o seu nome, mas no sentido em que não teria que viver mais. Pois, já dizia o poeta*, Viver sempre também cansa. Cansa mais ainda quando se vive sozinho. É improvável que a letra de Eddie Vedder seja uma recriação fiel da vida de Jeremy Wade Delle, até porque o próprio Vedder explica que misturou a história de Wade Delle com a história do Jeremy que havia na vida dele.

Jeremy 1Mas não é difícil imaginá-lo, como na primeira estrofe, sozinho no quarto a desenhar um mundo em que a sua vida não fosse o que era. Castelos e montanhas que pudesse governar, estando assim no topo do mundo, em vez de se sujeitar às pessoas que teimam em transformar o mundo numa espécie de cadeia alimentar em que não basta estar no topo: é preciso também empurrar todos para o fundo. E não é difícil imaginar os pais, completamente indiferentes ao filho. E não é preciso imaginar, pois sabemos que assim foi, que Jeremy só foi notado pelos que o rodeavam quando disse a sua última palavra. Como uma bala pode ser redentora! Como a passagem rápida e quase indolor do metal pelo cérebro pode ser tão mais bela e bondosa do que uma vida em que tudo é prometido constantemente e raramente as promessas são transformadas em realidades.

Foi o triunfo, então, que passou pela nuca quando Jeremy colocou o revolver na boca. Os olhos azuis se encheram então de um brilho insólito e até o sangue que começou a empoçar à sua volta no chão, quando já tinha caído, parecia vivo e brilhante como um rio que assinala a passagem do tempo e marca um caminho para o eterno mar. Jeremy poderia ter sangrado um rio, porque estava finalmente livre. A sua boca gélida poderia ter sorrido, pois que melhor recompensa poderia haver para o sofrimento de quinze anos de vida do que o choque em que a turma inteira ficara? Sim, eles estavam sentados nas suas carteiras, olhavam em frente atónitos e incrédulos, num misto de surpresa, de dúvida, de culpa e de medo. Jeremy era um justiceiro. Ou fez a justiça que pôde. Não durou mais do que uns dias, mas a verdade é que, se não fossem o revólver e a bala e o sangue, Jeremy nunca teria cobrado a ninguém o sofrimento que lhe haviam causado.

O mais provável é que, passado algum tempo, aqueles colegas de turma já o tivessem esquecido, já nem pensassem nele. Mas, por momentos, a dúvida os atravessa com uma ligeireza e dolorosa de uma lâmina. Haviam-se perguntado se tinham culpa naquilo, se haviam feito tanto mal a alguém. E esse sofrimento era uma considerável moeda para o sofrimento de Jeremy. E hoje, vinte e seis anos depois, nós tocamos a música e cantamos, entre a compaixão e a admiração, a letra que Vedder escreveu tão sensivelmente. E é impossível que não vejamos nitidamente Jeremy. Pode ter sido esse rapaz mutista que passava por nós nos corredores, ou podemos ter sido precisamente nós.

Não foi uma canção que fez de Jeremy eterno, porque eterno já ele era. A canção veio relembrá-lo.